Da sala de aula à aplicação prática: graduandos do Curso de Nutrição analisam detergentes supostamente contaminados
No dia 05 de maio de 2026 a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) publicou a Resolução N° 1.834/2026, informando a suspensão da comercialização, distribuição e utilização de alguns produtos de uma determinada marca. Tal ação foi motivada pelo descumprimento da Resolução nº 47, de 25/ 2013, a qual aprovou o Regulamento Técnico de Boas Práticas de Fabricação para Produtos Saneantes, detectado durante inspeção sanitária realizada no período de 27 a 30/04/2026. Além disso, esta inspeção da agência foi motivada pelo evento de contaminação microbiológica registrado na fábrica da empresa em novembro de 2025, onde foi identificado a bactéria Pseudomonas aeruginosa em alguns produtos. O lote dos produtos suspensos terminam em 1 e foram: Detergentes, Lava-roupas líquidos e Desinfetantes da marca.
Com base neste cenário, os acadêmicos do curso de Nutrição matriculados na Disciplina de Microbiologia de Alimentos se preocuparam com os possíveis riscos relacionados à contaminação de detergentes utilizados na limpeza de utensílios de cozinha e superfícies de preparo de alimentos. Como esses utensílios entram em contato direto com os alimentos, uma possível contaminação microbiológica poderia contribuir para a transmissão de microrganismos e, consequentemente, aumentar o risco de Doenças Transmitidas por Alimentos (DTAs), principalmente em grupos mais vulneráveis, como crianças, idosos, gestantes e pessoas imunocomprometidas, despertando assim um desejo investigativo em aplicar na prática os conteúdos aprendidos na Disciplina de Microbiologia de Alimentos (Figura 1). A experiência também contribuiu para uma maior compreensão sobre a importância da segurança dos alimentos e do controle microbiológico em produtos utilizados no dia a dia, aproximando os alunos da realidade profissional e científica da área da saúde.
Figura 1: Alunos conferindo o lote dos frascos selecionados
Para as análises, amostras foram coletadas de quatro frascos diferentes de detergente da marca suspensa com lote final 1(identificados conforme sua cor Amarelo A, Amarelo B, Vermelho, Verde). Com exceção do amarelo B (fabricação de 2025) todos foram fabricados em 2026. Vale destacar que os alunos seguiram os protocolos de Boas Práticas Laboratoriais e os Compêndios oficiais em Microbiologia para a execução dos ensaios, os frascos foram abertos de maneira estéril, evitando a contaminação, e homogeneizados de forma adequada. O método de análise escolhido foi o de inoculação em superfície em um meio de cultura não seletivo. Várias diluições foram analisadas uma vez que este tipo de amostra possui conservante. A análise foi realizada em duplicata, em dias e grupos de alunos diferentes, garantindo assim a reprodutibilidade da análise (Figura 2).
Figura 2- Fotos dos grupos 1 e 2 de análise com detalhe para os frascos analisados e a abertura asséptica do frasco de detergente.
Das quatro amostras analisadas, três apresentaram contagem microbiana (os três frascos fabricados em 2026). Preocupados em checar se a quantidade estava de acordo com o permitido os alunos pesquisaram por legislações e apesar da relevância do tema, observou-se a ausência de uma legislação específica que estabeleça padrões microbiológicos e limites de Unidades Formadoras de Colônias (UFC) para detergentes, assim como existe para alimentos, cosméticos e outros produtos de interesse sanitário. De acordo com a RDC nº 59/2010, atualmente existem apenas diretrizes relacionadas aos processos de fabricação e controle de qualidade, sem a definição de limites microbiológicos específicos para esses produtos. Essa lacuna regulatória observada pelos alunos merece atenção, considerando que detergentes utilizados na higienização de utensílios e superfícies podem favorecer a contaminação cruzada quando apresentam contaminação microbiológica, aumentando os riscos à saúde pública. O grupo ainda discutiu sobre um artigo publicado em 2003, por um grupo de pesquisa do Adolfo Lutz que também observaram presença de contaminação, inclusive por microrganismos patogênicos e apontaram para a necessidade de um controle mais rígido (Bugno et al., 2003). Na discussão de grupo foi apontado um ponto importante: Como considerar o detergente da marca suspensa como contaminado se atualmente não há uma legislação com o limite máximo permitido? Quais microrganismos patogênicos não poderiam estar presentes?
Dessa forma, este processo investigativo reforça a importância da criação de normas mais específicas e da realização de monitoramento microbiológico contínuo desses produtos, visando maior segurança para a população.
Grupo de trabalho: Amanda Barbosa Severio da Silveira; Amine Rafaela da Silva de Santana; Heloisa Gonzatto Cavalcanti; João Lucas de Almeida Godoy Castello; Lucas Coiti Nishimoto Ito; Luana Peralta da Cruz; Pedro Oliveira Ortega; Thomas Nantes Mangini de Moraes; Prof Dra. Gabriela Corrêa Carvalho
Matéria escrita e elaborada por: Amine Rafaela da Silva de Santana; João Lucas de Almeida Godoy Castello; Pedro Oliveira Ortega; Prof Dra. Gabriela Corrêa Carvalho



